terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dar nota para um vinho...

Segue matéria muito interessante de Mauricio Tagliari, sobre qual a importância de se pontuar um vinho, afinal o que mais interessa ao consumidor é o momento que ele degusta,o local, a companhia...

Enfim o trabalho dos "pontuadores", é bem vindo, mas o mais importante é sentir prazer ao beber seu vinho sem se preocupar se ele é um top ou um vinho do dia a dia.

EDUARDO TLACH

VINHO AO SEU ALCANCE


http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4194726-EI13996,00-Faz+sentido+dar+nota+para+um+vinho+ou+uma+cerveja.html


Faz sentido dar nota para um vinho ou uma cerveja?

O fotógrafo e jornalista americano radicado no Brasil David Drew Zing, Tio Dave para os íntimos, costumava afirmar que tinha a receita do melhor hamburger do mundo.

"É simples", ele dizia. "Convide sua Jennifer e seus melhores amigos para um almoço num domingo ensolarado. Peça para chegarem ao meio-dia, pontualmente. Sirva generosas doses de Dry Martini feito em jarras de refresco. Prepare os hambúrgueres com uma boa carne, moída uma só vez, e ponha sal e pimenta-do-reino somente quando estiver na grelha. O segredo é servi-los lá pelas três da tarde". Até onde eu sei, nunca ninguém reclamou dos quitutes do Tio Dave.

Este caso demonstra como a apreciação pode ser relativa e influenciada por fatores externos ao produto consumido. Acredito que seja assim com filmes, música, livros, enfim, tudo o que dependa de nossa apreciação crítica, sempre sujeita a nossa subjetividade.

Adoro tudo o que li de Guimarães Rosa. Venero o Grande Sertão: Veredas. Mas não diria que dá para ler em qualquer momento psicológico ou situação cotidiana. Sou um confesso fã de comédias italianas. Mas mesmo elas precisam de seu momento. Nem por isso eu daria uma nota baixa para Monicelli ou Rosa. Assim como não daria uma nota máxima ao sanduba do saudoso Tio Dave.

Por que, então, ficar dando notas e pontuações para vinhos e cervejas? A gente não anda pela vida dizendo "este livro é 75 pontos" , "este pão com manteiga é 88 pontos", "este carro é 89 pontos" ou "a decoração da sua casa é 92 pontos". Não! As pessoas falam de emoções, sabores, sensações, características. E isso as aproxima ou as afasta.

Dar nota para um vinho é uma técnica que se aprende nos cursos. Há fichas-padrão de 100 pontos e é muito engraçado usá-las. Na verdade, algo muito instrutivo. Elas são divididas por itens (aparência, aroma, sabor, equilíbrio, etc.) e sub-itens (transparência, brilho, potência, persistência, etc.).

Normalmente, nas primeiras vezes que as usamos, tomamos um susto ao somar os totais. Sempre damos notas muito baixas para vinhos de que gostamos. Ou notas baixas em geral. Talvez por conta de uma idealização de um vinho perfeito que não conheçamos e nunca iremos experimentar. Depois de pegar o jeito, distribuímos de maneira mais equilibrada as pontuações, que têm pesos diferentes, e acabamos "fazendo justiça". No final das contas, depois de um pouco de estrada, você já tem na cabeça uma nota para o vinho.

Tudo bem. É sua nota pessoal. Muito válida, aliás. Mas restrita àquele vinho daquela garrafa, naquele lugar, àquela hora, naquela temperatura, naquele copo, com aquela companhia! O que me intriga é quando produtores, distribuidores, importadores e até o pobre consumidor se baseiam em notas e pontuações dadas por um terceiro, o crítico, para escolher seu vinho.

Já há muita gente cansada de ouvir críticas a este sistema. Críticas ao Robert Parker e à Winespectator. Em confrarias um pouco mais rodadas nota-se até uma má vontade com um vinho 90 pontos do Robert Parker. Há, aqui e ali, blogueiros de renome internacional preconizando a eminente decadência de Mr. Parker. Será?

Posso estar enganado, mas aquelas notinhas do lado do nome do vinho no catálogo ainda são decisivas na hora da compra. Mesmo que a nota 90 seja para um vinho de outra safra. Mesmo que o vinho seja ideal para acompanhar carne de cordeiro e o comprador seja um vegan radical!

Qual seria a razão? Na minha modesta opinião, somente preguiça e insegurança. Para o vendedor é mais fácil oferecer um vinho com um aval simples de ser entendido. Para o consumidor parece ser melhor confiar em um especialista.

Eu não confio em especialistas. Menos ainda em especialistas americanos. Os especialistas venderam os derivativos ao mundo. Os especialistas garantiram a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Os especialistas nos dizem que vinho bom é encorpado, frutado, de taninos macios, com bastante álcool, etc., etc. Mas bom para quê? E todos os outros maravilhosos tipos de vinho que existem no mundo?

Particularmente, vivo em busca de vinhos diferentes. Que me surpreendam. Mesmo alguns que ironicamente recebam notas altas. Não sei se é o caso deste alsaciano, Riesling Schoenenbourg de Riquewihr Gran Cru 2004 (Dopff ai Moulin), trazido pela Mistral por R$ 141,68.

Longe de parecer mais um daqueles brancos com muita acidez ou muita madeira, este é complexo e transparente na sua autenticidade. Seco como deve ser, com toques de frutas brancas que combinam absolutamente bem com a mineralidade. É uma pena não termos mais ofertas de bons riesling por estas bandas. Degustei-o num almoço com bons amigos. Se tivesse de dar uma nota não seria menos que 91 pontos. Mas a companhia com certeza puxou a nota pra cima...

As notas são assim. Podem ser influenciadas pelo astral, pela companhia, pela sede ou pela fome. Costumo dizer que uma das melhores refeições da minha vida aconteceu em um boteco de beira de estrada na Ligúria, por volta das 16 horas. Não havia outra opção. Pedimos uma salada de frutos do mar e um spaghetti ao pesto. A dona do local nos trouxe a comida e o vinho, um pinot grigio básico, com rótulo rasgado e, pasmem, até o café expresso, junto com a conta. Quis que pagássemos adiantado e apagássemos a luz ao sair. E se foi para namorar um caminhoneiro garotão no estacionamento. Uma cena de comédia italiana.

E eu daria um 90 pontos para aquele vinho branco de que nem lembro o nome. Mas não o recomendaria ao leitor!